A Caixa Econômica Federal completa 165 anos na próxima segunda-feira, 12 de janeiro. Presente na vida de praticamente todos os brasileiros, o banco público é responsável pela execução das principais políticas sociais do Governo Federal e tem papel central no desenvolvimento econômico e social do país. No entanto, a data é marcada por contradições: enquanto os lucros crescem de forma expressiva, avançam o fechamento de agências, a redução da presença territorial e os impactos negativos para trabalhadores e comunidades.
“O banco faz parte da vida de todo brasileiro, especialmente da população que mais precisa do Estado”, destaca o coordenador da Comissão Executiva dos Empregados (CEE) da Caixa, Felipe Pacheco. “Neste aniversário, reafirmamos nosso compromisso com a defesa da Caixa 100% pública, socialmente responsável e com trabalhadores valorizados e respeitados. A história da Caixa é feita de pessoas — e são elas que devem estar no centro de qualquer projeto de futuro para o banco.”
Fechamento de agências e prejuízos sociais
O processo de fechamento de agências da Caixa, iniciado em 2017, foi drasticamente intensificado em 2024 e 2025. Dados do Dieese mostram que a rede perdeu 196 agências desde então, passando de 3.404 unidades em 2015 para 3.208 ao final de setembro de 2025. Somente em 2024 foram encerradas 113 agências, e em 2025 outras 50 até setembro.
A redução da presença física do banco afeta diretamente a população mais vulnerável, sobretudo em pequenos municípios, áreas rurais e regiões remotas, onde a Caixa muitas vezes é o único ponto de atendimento bancário. Nessas localidades, o fechamento de unidades obriga famílias a percorrer longas distâncias para acessar benefícios e serviços que, em muitos casos, só podem ser resolvidos presencialmente.
“Cada agência fechada é uma porta do Estado que deixa de existir para quem mais necessita. O Brasil precisa de mais presença territorial da Caixa, não menos”, afirma Felipe Pacheco.
A Caixa é o braço operacional de programas como Bolsa Família, BPC, FGTS, abono salarial, Pronaf e políticas habitacionais. Milhões de brasileiros sem acesso à internet, pacote de dados ou smartphone acabam excluídos do atendimento quando uma agência fecha.
Impactos na economia local
Além do efeito social, o encerramento de agências provoca prejuízos diretos à economia de bairros e municípios. Agências bancárias funcionam como polos de circulação de pessoas e recursos, sustentando o comércio local e os serviços.
Com o fechamento das unidades, comerciantes e microempreendedores enfrentam queda no movimento, redução das vendas e maior dificuldade para acessar crédito e serviços financeiros. Em diversas cidades, prefeitos e comerciantes relatam um verdadeiro “esvaziamento econômico” no entorno das agências fechadas.
“Não é só o atendimento bancário que desaparece. O comércio sofre, os serviços perdem movimento, e a economia de bairros inteiros fica fragilizada. A Caixa tem papel econômico local que não pode ser ignorado”, reforça o coordenador da CEE.
Prejuízos aos trabalhadores
A reestruturação da rede também tem imposto perdas significativas aos empregados. Apesar do compromisso assumido em mesa de negociação de que não haveria prejuízo de função ou remuneração, a realidade tem sido diferente.
Empregados transferidos para unidades já saturadas acabam descomissionados, perdem gratificações e sofrem redução salarial. A sobrecarga aumenta, as filas crescem e o adoecimento físico e emocional se intensifica.
“É inadmissível que colegas com décadas de compromisso com a Caixa tenham suas remunerações rebaixadas por uma decisão estrutural do banco”, denunciam as entidades representativas.
Para a representante da Fetec/PR na CEE, Samanta Almeida, a digitalização não substitui o atendimento presencial. “Fechar agência não é modernização. É abandono. A Caixa não pode se afastar das comunidades e deixar de cumprir sua função social”, afirma.
Lucros recordes e contradições
Os números financeiros mostram uma Caixa altamente lucrativa. O lucro líquido contábil alcançou R$ 3,8 bilhões no terceiro trimestre de 2025, 15,4% maior que no mesmo período de 2024. No acumulado de janeiro a setembro, o banco somou R$ 13,5 bilhões, crescimento de 50,3%. Os ativos totais chegaram a R$ 2,2 trilhões.
Mesmo em comparação com grandes bancos privados, como Itaú, Bradesco e Santander, a Caixa apresentou desempenho superior em ritmo de crescimento, especialmente em áreas como crédito imobiliário, saneamento e infraestrutura.
Ainda assim, o banco encerrou setembro de 2025 com 84,3 mil empregados — quase 20 mil a menos que em 2014 — e 49 unidades a menos em apenas 12 meses. O número de clientes ultrapassa 156 milhões, evidenciando a contradição entre expansão das operações e redução do quadro e da rede física.
“A Caixa apresenta lucro crescente, mas isso acontece à custa de um quadro de pessoal cada vez mais reduzido e de trabalhadores exaustos. Quem garante o atendimento à população é o empregado da Caixa, e isso precisa ser reconhecido”, afirma Felipe Pacheco.
Saúde Caixa e pauta urgente
As despesas administrativas seguem praticamente estáveis, enquanto persiste o teto estatutário de 6,5% para os gastos com o Saúde Caixa. As entidades defendem a retirada desse limite para garantir o custeio 70/30 e a sustentabilidade do plano.
“Conquistamos o reajuste zero nas mensalidades, mas essa foi apenas uma etapa. É preciso extinguir o teto para garantir a saúde dos trabalhadores”, afirma o diretor da Contraf-CUT, Rafael de Castro.
Desigualdade racial no banco público
Levantamento do Dieese, com base em dados da Rais e do Caged, revela que a Caixa reproduz desigualdades estruturais do mercado de trabalho. Atualmente, 68,5% dos empregados são brancos, enquanto apenas 3,8% são pretos e 23,4% pardos. Nos cargos mais bem remunerados, a desigualdade se aprofunda: mais de 74% dos salários acima de 20 mínimos são ocupados por pessoas brancas.
As mulheres negras formam o grupo com menor presença nas faixas salariais mais altas. Mesmo com aumento de contratações de trabalhadores pretos e pardos nos últimos anos, a desigualdade salarial persiste.
“A Caixa precisa assumir seu papel no combate ao racismo estrutural dentro da própria instituição”, defende Felipe Pacheco. “Não é aceitável que pretos e pardos sejam minoria nos cargos de gestão.”
Para a representante da Fetrafi Nordeste na CEE, Chay Cândida, o cenário exige ação urgente. “É uma batalha contra o racismo, que faz parte da luta geral contra a desigualdade”, afirma.
A conselheira eleita no Conselho de Administração da Caixa, Fabiana Uehara, reforça que diversidade não pode ser apenas estatística. “É preciso garantir trajetória, valorização, formação e presença nas cadeiras de decisão. Só há justiça quando há igualdade de oportunidades.”
Defesa da Caixa pública
Diante desse cenário, o movimento sindical defende a suspensão do fechamento de agências, a recomposição da rede física, a garantia das funções e remunerações, a retirada do teto do Saúde Caixa e políticas efetivas de promoção da igualdade racial e de gênero.
“A Caixa é o coração das políticas públicas brasileiras e um motor econômico das comunidades. Fechar agências enfraquece municípios, prejudica trabalhadores e afasta o Estado do povo. Isso precisa parar”, conclui Felipe Pacheco.
Aos 165 anos, a história da Caixa reafirma sua importância para o Brasil — e reforça que não há futuro para o banco sem valorização dos trabalhadores, presença territorial e compromisso real com sua função social.
Fonte: CONTRAF
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